Catarina Flaksman
3.
O segundo dia do colóquio começou com as “Perspectivas Morfogenéticas”, abordando a cidade como uma célula viva e em constante movimento.
Alejandro Zaera-Polo, do Foreign Office Architects (FOA) (http://www.f-o-a.net/) , abriu o debate com uma crítica ao formalismo – referindo-se aos “formy architects” – e apresentou imagens de tudo o que dá forma ao mundo, para além da arquitetura: ideais (líderes políticos, sociais, econômicos) e produtos (roupas, comida, tecnologia). Depois desenvolveu sua teoria de que o envelope de um edifício pode ser um novo mecanismo de projeto, tal qual o corte e a planta-baixa. Zaera-Polo vê o envelope como uma resposta à emergência de fronteiras; é o envelope que pode garantir a economia de energia. Dividiu os tipos de envelopes em quatro:
1.Criação de novas superfícies: solo e edifício se misturam através de uma nova topografia.
2.Envelope esférico (x=y=z): pele independente do interior, uso de luzes e padrões.
3.Tipos horizontais planos: determinam a cidade. Controle do clima e iconografia trabalham juntos.
4.Envelope vertical: performance ambiental através de elementos de sombra e padrões.
Makoto Watanabe (www.makoto-architect.com/) defendeu a idéia de que precisamos aprender com os sistemas da natureza a como construir nossas cidades. Define a natureza como o lugar da razão e o artefato como resultado da lógica. Mostrou um programa de computador capaz de calcular a entrada de luz do sol e prever suas sombras para, assim, desconstruir formas mantendo uma mesma densidade e melhorar o aproveitamento de luz (Sun God City). Tem como objetivo criar diferentes soluções para a construção da cidade, aliando interesse e acessibilidade. Dá como exemplo as cidades medievais, muito mais naturais e interessantes do que as cidades de hoje. Propõe um design baseado na luz, orgânico e diversificado.
Ben Van Berken, do UN Studio (www.unstudio.com/), baseou seu discurso no caráter transformador da arquitetura, que hoje foi esquecido. Disse que temos que nos libertar dos estilos e explorar uma arquitetura mais dinâmica capaz de criar conexões e aliar diferentes atividades. Como exemplos, citou o projeto de apartamentos na Coréia – fazendo uso de diferentes fachadas e criando um ambiente em seu interior – e o Millenium Park, espaço público com esculturas urbanas (“escultura urbana integral”).
Theo Spyropoulos e Yusuke Obuchi, professores da London Architectural Association, acreditam que a forma depende de como a organizamos, a moldamos. Para eles, existem problemas que precisam ser resolvidos e que contribuem para a criação da arquitetura, como:
- estar conectado: complexidade
- rápido desenvolvimento
- diferenciações significativas
- relações entre partes e todo: integração
- programação (”programming’) como ferramenta de design, simulação da vida.
- interior urbano. Em que ponto a arquitetura se transforma em uma cidade?
- ecologia adaptável : desenvolvimento evolutivo no urbanismo
- visualizar a cidade: a informação precisa ser codificada e decodificada.
4.
Na parte da tarde, a sessão foi chamada de “Limites do Caos Genérico”, concentrando-se nos sistemas urbanos pós-racionalistas nos quais encontramos novas possibilidades de intervenção – como infra-estruturas e espaços agora desqualificados.
Dominique Perrault (www.perraultarchitecte.com) apresentou dois projetos. O primeiro, na região da Normandia, França, de 1994, trata-se de um sítio devastado onde havia uma usina. O projeto propõe a construção de uma nova paisagem geográfica como suporte material, utilizando-se do vazio e da água. Para isso, são feitos platôs numa trama de 100m2. A idéia é dar presença ao local sem um projeto urbanístico, mas com uma experimentação física.
O segundo projeto data de 2009 em Sofia, na Bulgária. O ponto de partida é criar um bairro que mostre que o país faz parte da União Européia. A partir da preservação do vazio e da criação de uma nova paisagem, também geográfica, o solo e a hidrografia são preservados e é possível uma maior percepção do lugar. Perrault afirma que o envelope nem sempre está ligado à forma, pois esta pode vir depois. Um envelope virtual capaz de controlar, mas livre e aleatoriamente, uma vista geral, uma unidade. Não há regras autoritárias, mas um processo, uma relação com a natureza.
Rem Koolhaas (www.oma.eu) fez jus à sua fama – foi a única conferência lotada, com filas que se formaram uma hora antes e, por isso, muita gente assistiu através da projeção na sala ao lado. Sua apresentação parece ter sido a única pensada especialmente para a ocasião, fazendo um breve histórico e caracterizando a sociedade francesa. Trouxe como referências filmes de Tati e Godard, criticou Jean Nouvel diversas vezes e, como conclusão, abordou os principais problemas do urbanismo contemporâneo. A questão da segregação entre centro e banlieue, no caso específico de Paris, foi citada como uma das mais urgentes a ser resolvida. Criticou o espaço público opressivo, contrário à pluriculturalidade. No final, alertou para a importância que temos que dar ao campo, uma vez que se manteve vazio com a grande procura pelas cidades.
Kengo Kuma (www.kkaa.co.jp/ ) baseou sua fala nos valores e conceitos das cidades japonesas. Entre eles, valoriza o teto, a terra, a semente e o biombo. Diz que as cidades japonesas são um exemplo de conexão entre a natureza e o humano, e mostra seu projeto para um museu próximo ao Monte Fuji. Os tetos parecem ligar o museu ao monte, enquanto as ruas são orientadas com o objetivo de observar a natureza. O mais importante é o teto e o solo, e não as paredes. O uso dos biombos faz com que o espaço seja partilhado, permitindo trocas.
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