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O desafio capital: as metrópoles de grande escala (Notas - parte 2) / 10.mar.10

 

Catarina Flaksman

 

3.

O segundo dia do colóquio começou com as “Perspectivas Morfogenéticas”, abordando a cidade como uma célula viva e em constante movimento.

 

Alejandro Zaera-Polo, do Foreign Office Architects (FOA) (http://www.f-o-a.net/) , abriu o debate com uma crítica ao formalismo – referindo-se aos “formy architects” – e apresentou imagens de tudo o que dá forma ao mundo, para além da arquitetura: ideais (líderes políticos, sociais, econômicos) e produtos (roupas, comida, tecnologia). Depois desenvolveu sua teoria de que o envelope de um edifício pode ser um novo mecanismo de projeto, tal qual o corte e a planta-baixa. Zaera-Polo vê o envelope como uma resposta à emergência de fronteiras; é o envelope que pode garantir a economia de energia. Dividiu os tipos de envelopes em quatro:

1.Criação de novas superfícies: solo e edifício se misturam através de uma nova topografia.

2.Envelope esférico (x=y=z): pele independente do interior, uso de luzes e padrões.

3.Tipos horizontais planos: determinam a cidade. Controle do clima e iconografia trabalham juntos.

4.Envelope vertical: performance ambiental através de elementos de sombra e padrões.

 

Makoto Watanabe (www.makoto-architect.com/) defendeu a idéia de que precisamos aprender com os sistemas da natureza a como construir nossas cidades. Define a natureza como o lugar da razão e o artefato como resultado da lógica. Mostrou um programa de computador capaz de calcular a entrada de luz do sol e prever suas sombras para, assim, desconstruir formas mantendo uma mesma densidade e melhorar o aproveitamento de luz (Sun God City). Tem como objetivo criar diferentes soluções para a construção da cidade, aliando interesse e acessibilidade. Dá como exemplo as cidades medievais, muito mais naturais e interessantes do que as cidades de hoje. Propõe um design baseado na luz, orgânico e diversificado.

 

Ben Van Berken, do UN Studio (www.unstudio.com/), baseou seu discurso no caráter transformador da arquitetura, que hoje foi esquecido. Disse que temos que nos libertar dos estilos e explorar uma arquitetura mais dinâmica capaz de criar conexões e aliar diferentes atividades. Como exemplos, citou o projeto de apartamentos na Coréia – fazendo uso de diferentes fachadas e criando um ambiente em seu interior – e o Millenium Park, espaço público com esculturas urbanas (“escultura urbana integral”).

 

Theo Spyropoulos e Yusuke Obuchi, professores da London Architectural Association, acreditam que a forma depende de como a organizamos, a moldamos. Para eles, existem problemas que precisam ser resolvidos e que contribuem para a criação da arquitetura, como:

- estar conectado: complexidade

- rápido desenvolvimento

- diferenciações significativas

- relações entre partes e todo: integração

- programação (”programming’) como ferramenta de design, simulação da vida.

- interior urbano. Em que ponto a arquitetura se transforma em uma cidade?

- ecologia adaptável : desenvolvimento evolutivo no urbanismo

- visualizar a cidade: a informação precisa ser codificada e decodificada.

 

4.

Na parte da tarde, a sessão foi chamada de “Limites do Caos Genérico”, concentrando-se nos sistemas urbanos pós-racionalistas nos quais encontramos novas possibilidades de intervenção – como infra-estruturas e espaços agora desqualificados.

 

Dominique Perrault (www.perraultarchitecte.com) apresentou dois projetos. O primeiro, na região da Normandia, França, de 1994, trata-se de um sítio devastado onde havia uma usina. O projeto propõe a construção de uma nova paisagem geográfica como suporte material, utilizando-se do vazio e da água. Para isso, são feitos platôs numa trama de 100m2. A idéia é dar presença ao local sem um projeto urbanístico, mas com uma experimentação física.

O segundo projeto data de 2009 em Sofia, na Bulgária. O ponto de partida é criar um bairro que mostre que o país faz parte da União Européia. A partir da preservação do vazio e da criação de uma nova paisagem, também geográfica, o solo e a hidrografia são preservados e é possível uma maior percepção do lugar. Perrault afirma que o envelope nem sempre está ligado à forma, pois esta pode vir depois. Um envelope virtual capaz de controlar, mas livre e aleatoriamente, uma vista geral, uma unidade. Não há regras autoritárias, mas um processo, uma relação com a natureza.

 

Rem Koolhaas (www.oma.eu) fez jus à sua fama – foi a única conferência lotada, com filas que se formaram uma hora antes e, por isso, muita gente assistiu através da projeção na sala ao lado. Sua apresentação parece ter sido a única pensada especialmente para a ocasião, fazendo um breve histórico e caracterizando a sociedade francesa. Trouxe como referências filmes de Tati e Godard, criticou Jean Nouvel diversas vezes e, como conclusão, abordou os principais problemas do urbanismo contemporâneo. A questão da segregação entre centro e banlieue, no caso específico de Paris, foi citada como uma das mais urgentes a ser resolvida. Criticou o espaço público opressivo, contrário à pluriculturalidade. No final, alertou para a importância que temos que dar ao campo, uma vez que se manteve vazio com a grande procura pelas cidades.

 

Kengo Kuma  (www.kkaa.co.jp/ ) baseou sua fala nos valores e conceitos das cidades japonesas. Entre eles, valoriza o teto, a terra, a semente e o biombo. Diz que as cidades japonesas são um exemplo de conexão entre a natureza e o humano, e mostra seu projeto para um museu próximo ao Monte Fuji. Os tetos parecem ligar o museu ao monte, enquanto as ruas são orientadas com o objetivo de observar a natureza. O mais importante é o teto e o solo, e não as paredes. O uso dos biombos faz com que o espaço seja partilhado, permitindo trocas.

 

 

 

 

O desafio capital: as metrópoles de grande escala (Notas – Parte 1) / 01.mar.10

Catarina Flaksman

Para dar continuidade ao debate acerca do projeto Grand Paris, o ministro da cultura e da comunicação, Frédéric Miterrand, em parceria com o Centro Pompidou, organizou o Colóquio Internacional de Arquitetura “L’enjeu capital (es): les métropoles de la grande échelle” nos dias 1 e 2 de outubro, reunindo um grupo de arquitetos de peso. O colóquio foi dividido em quatro sessões, cada qual seguindo uma temática: (1) Memórias do futuro, (2) Ecosofias do urbano, (3) Perspectivas morfogenéticas (4) Caos genérico.
Arquitetos de diferentes gerações mostraram um pouco de sua visão de cidade através de alguns projetos, focando em um tema ou outro.

1.
Na primeira sessão, ”Memórias do Futuro”, uma das maiores questões tratadas foi o método de intervenção de um projeto urbano. Discutiu-se o uso do grid e a adaptação do projeto ao contexto em que ele se insere.

Pier Vittorio Aureli, do escritório italiano Dogma, insistiu na importância do texto e da prática teórica para se pensar as cidades. Nos projetos apresentados, mostrou a prioridade dada à definição de limites, aos espaços criados a partir deles e à relação entre eles, deixando a arquitetura por aberto, como uma “arquitetura não-figurativa da cidade”. No projeto para uma cidade multifuncional na Coréia do Sul, teve como método definir limites e iniciar o processo de crescimento urbano a partir deles, e não do centro. A partir daí, é criada uma espécie de “gramática para a cidade”, com o uso de formas simples e repetidas que facilitam o alcance de uma forma final para o conjunto. Acredita que uma cidade pode ser estruturada (framed) ou preenchida (filled), afirmando que é possível dar identidade e criar ícones a partir da organização urbana de um território, e não apenas através de uma arquitetura formalista e exagerada.

Lucas Galogaro (http://www.ianplus.it/) foca nos problemas urbanos atuais de Roma – mas que podem estender-se para outras metrópoles -, tais quais a decadência do centro histórico, seu caráter genérico que pode ser reproduzido em qualquer lugar e a dificuldade de se fazer uma arquitetura contemporânea. Para ele, o turismo, a política e as universidades estão destruindo a cidade, fazendo com que os habitantes transformem-se em meros usuários e, assim, deixem de viver no centro da cidade. Sua proposta é criar conexões entre edifícios abandonados, mantendo suas fachadas e demolindo seus interiores. O importante é o conteúdo, o programa. Uma arquitetura livre da imagem e do estilo. A paisagem como uma conexão entre público e privado.

Bernard Tschumi (www.tschumi.com/) defendeu que toda forma é resultado de um conceito, e que um conceito pode surgir a partir do contexto em que se trabalha. Cita a construção do Pompidou como “o grande concurso de sua geração”, trazendo o paradoxo local versus global para Paris. Resume uma cidade como um “conjunto heterogêneo de formas-conceito” – da tipologia para a topologia. Através de alguns projetos, mostra a importância do grid, seja ela superposta a uma já existente (intervenção em Pequim) ou criada em cima de um não-contexto, num sítio virgem e rural (projeto para cidade na República Dominicana). Critica Dubai, caracterizando-a como uma “arquitetura da abstração”, construída por arquitetos que não conhecem sua história, cultura ou economia local. Tschumi difere a cidade contemporânea da cidade do século XIX, afirmando que a cidade dos espaços deu lugar à cidade dos objetos.

Peter Eisenman (www.eisenmanarchitects.com/) apareceu apenas virtualmente, lendo um texto em que caracteriza o momento atual pela condição de lateness, ou seja, um período de crise – mas não de oposição – em que algo pode emergir do mundo dialético. Não vê a sustentabilidade como o novo paradigma, mas como uma questão com a qual os arquitetos sempre se preocuparam.

2.
A sessão da tarde, ”Ecosofias Urbanas”, discutiu a integração entre cidade e natureza, tratando a “arquitetura verde” a partir de suas origens e ressaltando a importância da economia de recursos.

James Wines, do escritório americano Site (www.siteenvirodesign.com/) e autor do livro “Green Architecture”, criticou o urbanismo contemporâneo como sendo de baixa qualidade, fazendo uso de clichês tais quais as lollypop trees, presentes em quase todos os projetos de paisagismo. Criticou também os absurdos gastos envolvidos nas mega-estruturas que são construídas atualmente, que fazem da arquitetura uma escultura. Defende o verde como missão estética, aliando a arquitetura à arte e à tecnologia. Vê o período atual, de 1955 a hoje em dia, como a “Era da informação e da ecologia”, marcada pela integração.

Andrea Branzi (www.andreabranzi.it/) citou pontos de uma “Nova Carta de Atenas”. Para ele, a cidade tornou-se uma realidade opaca em que forma e função se separaram. Por isso, acredita que são necessários outros instrumentos de intervenção além da própria arquitetura. Entre os pontos criados estão:
— a cidade como uma favela high-tech: reversível, flexível.
— a cidade como um “computador pessoal” a cada 20 metros quadrados: rápida mudança de funções.
— a cidade para uma hospitalidade cósmica: co-habitação entre homem, animal, tecnologia, história, mortos etc.
— novos modelos de modelos fracos de urbanização: territórios híbridos, metade urbano, metade agrícola.
— limites indefinidos: interior e exterior desaparecem, integração do território.
— re-funcionalização da cidade existente: reuso de espaços vazios.
— grandes transformações através de micro-estruturas.
— a cidade como uma camada genética (”genetic layer”): fluxos, experimentações, energia sexual.

http://metropoles.centrepompidou.fr/index.php

Vídeo-arte / 25.fev.10

Na Whitechapel Gallery, em Londres, estão em exibição vídeos de dois artistas contemporâneos:

O argentino Charly Nijensohn, com o vídeo The Dead Forest (Storm), trata de maneira simples e delicada a questão da relação do homem com a natureza, foco de vários de seus trabalhos.

<http://www.charlynijensohn.org/>


A neozelandesa Nova Paul apresenta o vídeo “Pink and White Terraces”, no qual cenas do cotidiano são sobrepostas em várias layers coloridas que trazem a noção do passar do tempo e da vida urbana.

“Nova Paul’s 16mm film Pink and White Terraces, reflects on the delicate construction of domestic environments and public places in the Tamaki Makaurau and Manukau cityscapes. Using an optical process technique ‘three-colour separation’, the film makes visible several moments simultaneously. In red, green and blue layers, colour-coded auras hold a record of time like a geological accretion. In and out of phase, actors and environment focus and fade, making palpable filmic time, and gently unfolding the politics and poetics of the sites explored.

Cities are living entities.The density of communal living in urban space necessitates acts of creativity to individualise and shape the environment to reflect you, your family, your network of friends, to make it home. Like water, people find a route through the most complex or oblique channels to lead a self-determined life. This can manifest in the way we decorate our homes, or where we choose to do business or spend our leisure time. Within a city, points of contact with others vary from the most fleeting of encounters to life-long friendships.How are these myriad of networks made tangible, how do they inform the way our cities look and change? How does the domestic influence the civic?
The film is comprised of a series of static shots where the same place or action has been recorded three times, making tangible that no location is static, people move through space, and qualities of light and weather change. From barren trees in winter afternoon light through to a hot summer day on a front porch with friends, washing dishes at night or getting dressed to go out, shopping at a busy Sunday market to popping in to the dairy. The soundtrack by Rachel Shearer uses atmospheric sound recorded during the shoot mixed with a palette of sounds derived from the colour presence on screen, a union of the abstract and the figurative. Pink and White Terraces traces little happenings, things we do without acknowledging them as ’significant’, but which speak clearly about who we are individually and collectively.” <http://www.telecomprospect2007.org.nz/artist/nova-paul.shtml>

Mais informações em:
<http://www.whitechapelgallery.org/exhibitions/charly-nijensohn-and-nova-paul>
<http://www.murmurart.com/dialogue/video-artists-charly-nijenson-and-nova-paul-at-the-whitechapel>

Noz 4 / 17.fev.10

Noz 4 na gráfica!

Margem / 14.set.09

De quarta a sábado (16 a 19 de setembro) acontece no Itaú Cultural a exposição seminário sobre o projeto Margem, o projeto de Arte Pública em cidades do Brasil que tem curadoria de Guilherme Wisnik naquela instituição.

As cidades e suas margens

Seminário Internacional de Arte Pública

Local: Itaú Cultural São Paulo

Os debates terão transmissão ao vivo pelo Forum Permanente

16 a 19 de Setembro 2009

PROGRAMAÇÃO

1. No Brasil: os rios e a geografia “à margem da história”?

4ª feira — 16 Set. 2009 — 19h*

Se a Amazônia promete ser a vanguarda do mundo, como diz Eduardo Viveiros de Castro, ela é também, por outro lado, o eterno emblema de um lugar à margem da História, como escreveu Euclides da Cunha. A história e suas margens, dobrados através da constante geográfica - os rios e suas bacias que compõem
um elo territorial e integram as cidades na escala do país e continental - são o enfoque desta mesa redonda.

Introdução do projeto: Guilherme Wisnik

Renato Sztutman (antropólogo, USP, São Paulo)

Francisco Foot Hardman (historiador, Unicamp, São Paulo)

Paulo Mendes da Rocha (arquiteto, São Paulo)

2. Revisão sobre práticas de arte pública site-specific

5ª feira — 17 Set. 2009 — 19h*

Esta mesa redonda foca no levantamento e problematização do conceito e metodologia de “site-specificity” no Brasil, focando o embate dos três primeiros artistas presentes no projeto, em diálogo com o curador, com as realidades diversas das cidades em que atuarão: Manaus, São Paulo e Porto Alegre. Serão considerados os seus processos em relação a três paradigmas da arte pública: “Arte no espaço público, Arte como espaço público, e Arte no interesse público”.

Guilherme Wisnik (arquiteto e curador do projeto)

Ana Maria Tavares (artista, São Paulo)

Nuno Ramos (artista, São Paulo)

Hector Zamora (artista, São Paulo)

Moderador convidado: Jorge Menna Barreto (artista, São Paulo)

3. Projetos e práticas de arte pública: retrospectiva e balanço

6ª feira — 18 Set. 2009 — 19h

Projetos específicos realizados nos anos noventa e práticas atuais — Arte/Cidade em São Paulo, E.I.A. em São Paulo/Brasil, e “InSite” em Tijuana/San Diego (Mexico/EUA) - contribuem para uma revisão de experiências das relações entre arte e escala urbana. Quais foram as perguntas, preceitos, metodologias, estratégias e efeitos destes projetos? Em retrospecto, o que eles teriam feito diferentemente?

Nelson Brissac Peixoto (diretor projeto Arte/Cidade, São Paulo)

Osvaldo Sanchez (diretor artístico projeto inSite 05, EUA/México)

Gisella Hiche - Experiência Imersiva Ambiental (EIA) (artista, São Paulo)

4. Reconfigurações territoriais recentes: novos atores e forças em jogo

Sábado — 19 Set. 2009 — 16h

Os rios e suas margens são elementos centrais no conflituoso processo de reconfiguração urbana que se dará, nas cidades brasileiras, em um futuro próximo: deixarão os rios urbanos e suas orlas de serem espaços marginais para recuperar a centralidade que desempenharam um dia, porém em novo contexto? Em que termos essa revisão crítica se dará? Casos específicos em Belém e na América do Sul serão discutidos, além de estórias de produtos espaciais em situações políticas difíceis e segregadoras ao redor do mundo.

Mariana Fix (urbanista, São Paulo)

Juliano Pamplona Ximenes Ponte (urbanista, Belém)

Adrián Gorelik (urbanista e historiador, Buenos Aires)

mais informações no Forum Permanente <http://www.forumpermanente.org/>

Cinelândia / 09.set.09

Cinelândia, 2009
DVD
1′30″

Vídeo produzido especificamente para a exposição “Linguagem de Travessia”, no Centro Cultural da Justiça Federal. Realizado no próprio espaço expositivo.

por Luiza Baldan

Lina por escrito - lançamento e debate / 04.set.09

Cosac Naify, revista Noz e CAU/PUC-Rio convidam para o lançamento do livro

Lina por escrito

uma coletânea de textos da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi.

debate entre Maria Cristina Cabral (FAU/UFRJ), João Masao Kamita (PUC-Rio) e Silvana Rubino (Unicamp, organizadora da publicação), com mediação de Ana Luiza Nobre (PUC-Rio).

terça-feira, 8 de setembro, às 18h
auditório Padre Anchieta – PUC-Rio

Clique aqui para mais informações sobre o livro.
Leia abaixo a resenha escrita por Maria Cristina Cabral.

Da pena ao concreto, ou da palavra às coisas / 04.set.09

 

Resenha de Maria Cristina Cabral do livro

Lina por escrito. Textos escolhidos de Lina Bo Bardi.

Silvana Rubino e Marina Grinover (orgs.)

São Paulo: Cosac Naify, 2009.

208 p. 180 ilustrações.

 

  

Finalmente surge uma publicação dedicada a divulgar a produção téorica da arquiteta italiana Lina Bo Bardi (1914-1992). Nascida em Roma, diplomada nessa mesma cidade em 1940, Lina chega ao Brasil em 1946, onde se radica a partir do ano seguinte. Naturaliza-se, estabelece larga influência sobre a nossa produção cultural, e recebe também forte influência da cultura popular brasileira sobre a sua obra. A singularidade de Lina Bo Bardi foi muito analisada por sua contribuição como estrangeira, mas ainda foi pouco analisada pelo impacto interno causado dentro dos campos nos quais atuou. A herança de suas influências teóricas e conceituais ainda não foi devidamente compreendida. A compilação de seus escritos — embora o livro não nos aponte a ordem de grandeza da totalidade destes — pode nos apontar caminhos para pensá-la.

 

Devemos ainda saudar a iniciativa de mais uma edição de textos teóricos sobre arquitetura no Brasil. Estes encontram-se dispersos em periódicos de origens diversas, cuja irregularidade de publicação dificulta o conhecimento. Reuni-los permite-nos melhor compreensão e dimensionamento do próprio campo da arquitetura, ainda tão incipiente, para uma atividade tão ancestral.

 

O formato do livro é agradável para a leitura e fácil de se transportar. A capa sem orelha ajuda a transmitir a ideia de que manuseamos uma revista. Uma revista de qualidade, farta em número de páginas, diversificada em imagens, de seleção paradigmática. As imagens apresentadas no início, em suas páginas semimonocromáticas, reproduzem as ilustrações das revistas nas quais Lina publicava. O sumário como índice remissivo de edições de revistas reforça a ideia do livro como revista, em uma feliz conceituação de projeto gráfico e de conteúdo.

 

No primeiro contato com Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi, surgem de imediato as questões sobre quais campos de atuação de Lina foram contemplados e quais foram os critérios de escolha dos textos. A contracapa esclarece que os textos abordam os temas da habitação, mobiliário, arte popular, museologia, restauro, educação e políticas culturais. No entanto, não se trata de uma seleção que não concerne aos campos, nem apenas aos temas, como indicado, mas sobretudo à questões.

 

O livro conta com uma excelente introdução, que pontua para o leitor questões presentes nos escritos, analisando a constituição do discurso, e não simplesmente reiterando-o, como é recorrente nas críticas apaixonadas sobre a arquiteta.

 

Nos textos de Lina submerge sua erudição, proveniente de sua origem italiana, através de seus acirrados pontos de vista. Os problemas da história, da relação entre arte e vida, do artesanato, da cultura de massa e cultura popular, da produção artística e da formação do arquiteto são recorrentes nos textos escolhidos. Silvana Rubino, responsável pela introdução, esclarece a origem de duas ideias centrais na obra de Lina Bo Bardi. As noções de presente histórico e de cultura popular de Lina são baseadas nas leituras de Benedetto Croce e de Antonio Gramsci, e materializadas nas restaurações e na museologia.

 

Como parte da produção da terceira geração de arquitetos modernos, tal como classificou Josep Maria Montaner, a obra de Lina Bo Bardi dialoga intensamente com as transformações do Segundo Pós-Guerra, como a de poucos arquitetos. Através de seus textos é possível descortinar o debate travado com a sua época, com seus pares, com seus desafetos. Há o emprego de termos cujos significados alteraram-se. Alguns textos podem parecer impenetráveis para o leitor não familiarizado. Neste sentido, seria recomendável uma pequena introdução para cada texto escolhido, ou cada grupo deles, contextualizando o debate ali existente.

 

A introdução do livro aponta para a importância da escrita na formação e no debate do campo arquitetônico, lembrando dois momentos cruciais na arquitetura do século XX, a fomentação da arquitetura moderna, na década de 1920 e da pós-moderna, na década de 1960.

 

No caso especial de Lina, seus escritos antecedem o início de sua prática arquitetônica. Lina debuta na sua vida profissional como cronista, ilustradora e editora, tornando-se grande conhecedora do potencial destas ferramentas de divulgação de ideias. No entanto, a verdadeira teoria da arquitetura de Lina, seu entendimento do fazer arquitetônico surge nas entrelinhas de seu discurso. Sua definição de teoria de arquitetura resume-se à formulação funcionalista simplista, “sinônimo e identificação da prática planificada” (grifo dela) [p.83]. Portanto, é na sua relação com a história, e com outras questões presentes nos seus escritos e na obra materializada, que se devem ser entendida suas concepções teóricas.

 

Uma questão convergente em muitos textos é a preocupação com a materialidade e o fazer do artífice. A separação entre arte e vida, fruto do modo de produção industrial, que John Ruskin tanto denunciou, atualiza-se no pensamento de Lina. O problema da técnica, da tecnologia e da arte industrial é central nos seus escritos. Lina Bo Bardi é uma artífice na sua própria definição: “(…) o arquiteto é um operário qualificado que conhece o seu ofício teórica e historicamente (…)” [p.84]. Na definição de Richard Sennett, o artífice está constantemente engajado no diálogo com os materiais, desconsiderando a superioridade da cabeça sobre a mão, e sustentando a relação entre práticas concretas e ideias. Lina Bo Bardi possui esta forte consciência material e aprimora-a, refletindo além do aspecto utilitário dos materiais, da transformação deles e das coisas, conferindo-lhes relevância cultural.

 

As imagens do final do livro-revista funcionam como álbum retratos, como um still da vida e obra da arquiteta. São fotos de Lina no ofício, na reconstrução da Itália do pós-guerra, Lina desenhando, pintando, escrevendo, palestrando, exibindo as jóias por ela desenhadas, vistoriando a obra, filmando ao lado de Glauber Rocha. Apresentam a Lina do MASP, da Bahia, enfim, a Lina do ofício, ou dos ofícios, entre os quais a escrita era parte integrante, e foi ponto de partida de sua expressão, capaz de integrar suas consciências material e social.

Lina por escrito / 21.ago.09

Encontro com Eduardo Coutinho no IMS / 19.ago.09

O Instituto Moreira Salles convida para o debate ENCONTRO COM EDUARDO COUTINHO, com a participação de Eduardo Coutinho, Ismail Xavier [pesquisador, professor da USP] e José Carlos Avellar [crítico, curador do Cinema IMS]. Dia 22 de agosto, sábado, às 18h30, logo após a sessão de Moscou (17h).

O evento é parte da RETROSPECTIVA EDUARDO COUTINHO, que acontece de 14 a 27 de agosto de 2009, organizada próprio Instituto Moreira Salles.

Informações sobre a programação da mostra em: www.ims.com.br

Em seguida, será realizada sessão de autógrafos e lançamento de dois livros da coleção Encontros da editora Azougue: Eduardo Coutinho (org. Felipe Bragança) e Ismail Xavier (org. Adilson Mendes).

Entrada franca.