Catarina Flaksman
—

Para dar continuidade ao debate acerca do projeto Grand Paris, o ministro da cultura e da comunicação, Frédéric Miterrand, em parceria com o Centro Pompidou, organizou o Colóquio Internacional de Arquitetura “L’enjeu capital (es): les métropoles de la grande échelle” nos dias 1 e 2 de outubro, reunindo um grupo de arquitetos de peso. O colóquio foi dividido em quatro sessões, cada qual seguindo uma temática: (1) Memórias do futuro, (2) Ecosofias do urbano, (3) Perspectivas morfogenéticas e (4) Caos genérico.
Arquitetos de diferentes gerações mostraram um pouco de sua visão de cidade através de alguns projetos, focando em um tema ou outro.
1.
Na primeira sessão, ”Memórias do Futuro”, uma das maiores questões tratadas foi o método de intervenção de um projeto urbano. Discutiu-se o uso do grid e a adaptação do projeto ao contexto em que ele se insere.
Pier Vittorio Aureli, do escritório italiano Dogma, insistiu na importância do texto e da prática teórica para se pensar as cidades. Nos projetos apresentados, mostrou a prioridade dada à definição de limites, aos espaços criados a partir deles e à relação entre eles, deixando a arquitetura por aberto, como uma “arquitetura não-figurativa da cidade”. No projeto para uma cidade multifuncional na Coréia do Sul, teve como método definir limites e iniciar o processo de crescimento urbano a partir deles, e não do centro. A partir daí, é criada uma espécie de “gramática para a cidade”, com o uso de formas simples e repetidas que facilitam o alcance de uma forma final para o conjunto. Acredita que uma cidade pode ser estruturada (framed) ou preenchida (filled), afirmando que é possível dar identidade e criar ícones a partir da organização urbana de um território, e não apenas através de uma arquitetura formalista e exagerada.
Lucas Galogaro (http://www.ianplus.it/) foca nos problemas urbanos atuais de Roma – mas que podem estender-se para outras metrópoles -, tais quais a decadência do centro histórico, seu caráter genérico que pode ser reproduzido em qualquer lugar e a dificuldade de se fazer uma arquitetura contemporânea. Para ele, o turismo, a política e as universidades estão destruindo a cidade, fazendo com que os habitantes transformem-se em meros usuários e, assim, deixem de viver no centro da cidade. Sua proposta é criar conexões entre edifícios abandonados, mantendo suas fachadas e demolindo seus interiores. O importante é o conteúdo, o programa. Uma arquitetura livre da imagem e do estilo. A paisagem como uma conexão entre público e privado.
Bernard Tschumi (www.tschumi.com/) defendeu que toda forma é resultado de um conceito, e que um conceito pode surgir a partir do contexto em que se trabalha. Cita a construção do Pompidou como “o grande concurso de sua geração”, trazendo o paradoxo local versus global para Paris. Resume uma cidade como um “conjunto heterogêneo de formas-conceito” – da tipologia para a topologia. Através de alguns projetos, mostra a importância do grid, seja ela superposta a uma já existente (intervenção em Pequim) ou criada em cima de um não-contexto, num sítio virgem e rural (projeto para cidade na República Dominicana). Critica Dubai, caracterizando-a como uma “arquitetura da abstração”, construída por arquitetos que não conhecem sua história, cultura ou economia local. Tschumi difere a cidade contemporânea da cidade do século XIX, afirmando que a cidade dos espaços deu lugar à cidade dos objetos.
Peter Eisenman (www.eisenmanarchitects.com/) apareceu apenas virtualmente, lendo um texto em que caracteriza o momento atual pela condição de lateness, ou seja, um período de crise – mas não de oposição – em que algo pode emergir do mundo dialético. Não vê a sustentabilidade como o novo paradigma, mas como uma questão com a qual os arquitetos sempre se preocuparam.
2.
A sessão da tarde, ”Ecosofias Urbanas”, discutiu a integração entre cidade e natureza, tratando a “arquitetura verde” a partir de suas origens e ressaltando a importância da economia de recursos.
James Wines, do escritório americano Site (www.siteenvirodesign.com/) e autor do livro “Green Architecture”, criticou o urbanismo contemporâneo como sendo de baixa qualidade, fazendo uso de clichês tais quais as lollypop trees, presentes em quase todos os projetos de paisagismo. Criticou também os absurdos gastos envolvidos nas mega-estruturas que são construídas atualmente, que fazem da arquitetura uma escultura. Defende o verde como missão estética, aliando a arquitetura à arte e à tecnologia. Vê o período atual, de 1955 a hoje em dia, como a “Era da informação e da ecologia”, marcada pela integração.
Andrea Branzi (www.andreabranzi.it/) citou pontos de uma “Nova Carta de Atenas”. Para ele, a cidade tornou-se uma realidade opaca em que forma e função se separaram. Por isso, acredita que são necessários outros instrumentos de intervenção além da própria arquitetura. Entre os pontos criados estão:
— a cidade como uma favela high-tech: reversível, flexível.
— a cidade como um “computador pessoal” a cada 20 metros quadrados: rápida mudança de funções.
— a cidade para uma hospitalidade cósmica: co-habitação entre homem, animal, tecnologia, história, mortos etc.
— novos modelos de modelos fracos de urbanização: territórios híbridos, metade urbano, metade agrícola.
— limites indefinidos: interior e exterior desaparecem, integração do território.
— re-funcionalização da cidade existente: reuso de espaços vazios.
— grandes transformações através de micro-estruturas.
— a cidade como uma camada genética (”genetic layer”): fluxos, experimentações, energia sexual.
Muito bom Cata!
Quero mais!
que otimo!
quero mais tb,
muito bom Cat gostei e… e aguardo continuação!!
Poste um comentário